Andando um dia pela mata
me surpreendi com a bicharada agitada.
Cada um fazia um comício
em defesa de seu ofício:"Marceneiro ou carpinteiro
pra mim é tudo igual"
- diz o ocupado Pica-Pau -
"trabalho bem qualquer madeira."
(Mas desconfio que, de verdade,
a sua especialidade
é só fazer peneira!)
"Eu faço buraco sem fim,
fininho, fininho assim!"
- grita, coberto de pó, o Cupim.
"Construo o meu próprio teto,
sou pedreiro e arquiteto.
Minha casa é redonda
e não tem janela
mas a porta está sempre aberta. |
E mais: nela não se passa fome"
avisa o João-de-barro
transportando a matéria-prima
na cor,
no bico,
no nome."Aproveito a noite sem sono
e protejo a mata em seu abandono.
Enquanto todos dormem,
sou guarda-noturno:
fico de olho no fogo,
na bruxa
e, principalmente, no bicho-homem"
- fala, cansada, a Coruja.
E assim, todos fazem o seu comício.
Menos um.
Pendurado em um canto,
paralisado como que por encanto,
um bicho tem ofício
muito estranho:
só enche lingüiça
esse danado do
Bicho-preguiça.
José de Nicola
Entre Ecos e Outros Trecos
Editora Moderna |